domingo, 15 de janeiro de 2012

Wittgenstein no otorrinolaringologista

Imagine-se um procedimento simples – conhecido de maneira difundida nos dias de hoje como o exame de audiometria. O jogo funciona da seguinte maneira: um médico senta em frente a um computador enquanto que o paciente se coloca numa cabine com paredes à prova de som. Além do próprio som do vácuo – uma espécie de ruído de ar sem vento -, os únicos barulhos ou ruídos que o paciente pode escutar são os que vêm de um fone de ouvido acoplado ao computador do médico. O médico, à vontade, aciona com o dedo algum botão que manda um ruído para o fone do paciente. Cada botão produz um ruído diferente – seja mais grave, mais agudo, mais forte, mais fraco. As ordens dadas ao paciente são para que ele, na medida em que ouça qualquer ruído, levante o dedo para indicar que conseguiu. A finalidade de todo este procedimento é verificar se os ouvidos do paciente conseguem captar vários tipos de som. Primeiro se procede com relação ao ouvido direito, por exemplo, e depois se verifica o esquerdo.

O que é que diz a ambos (o médico e o paciente) que o procedimento foi bem ou mal sucedido? O que serve de fundamento para que o médico se dê por satisfeito e encerre o tratamento, dando alta ao paciente? O que faz com que o paciente não pergunte de forma descrente “mas doutor, será que eu estou bem mesmo?” e agradeça ao médico por estar curado?

Não seria uma idéia maluca imaginar que o paciente seja atencioso o suficiente para notar um padrão determinado com o qual o médico aciona os botões, independente de quais sejam, e que ele use esta capacidade para levantar o dedo em momentos em que não ouviu qualquer coisa (pois, como dito, o médico às vezes aperta botões cujo volume é tão fraco que chega a ser praticamente inaudível), mas que sabe que são momentos em que provavelmente o médico teria pressionado o botão. Ele percebe que há certo ritmo no apertar de botões do médico – possivelmente por causa da pressa em finalizar o exame ou simplesmente pelo rigor da praxe – e levanta o dedo como se estivesse marcando as pausas de uma música, já que a resposta do paciente é sempre a mesma (levantar o dedo), pouco importando a altura ou volume dos sons.

Ou então o paciente brinca consigo mesmo. Digamos que este segundo paciente aposta – ele ouviu de um amigo como funciona o exame e propôs que apostassem (em dinheiro) quantos “acertos” ele conseguiria fazer. Neste caso ele investe em previsões e adivinhações e é bem possível – caso ele descubra um padrão que possa lhe ajudar, como faz o primeiro paciente – que ele levante o dedo nas horas certas e enriqueça um tanto.

Também nos é permitido imaginar que o paciente seja apenas o ator de um filme interpretando uma cena. Ou que ele esteja pregando uma peça – da espécie das sem graça - no médico com uma câmera escondida. Certamente que não são razões verificáveis a olho nu – poderíamos catalogá-las sob a categoria de razões ou motivos comportamentais. Nenhuma dessas situações poderia ser diferenciada da outra simplesmente pelo conjunto de fatores externos – a cabine à prova de som, o médico e o paciente (muito embora possam ser pessoas diferentes), os aparelhos eletrônicos utilizados, o dedo que se levanta e se recolhe, etc. Todos estes objetos estão presentes em qualquer uma das situações narradas acima. Para um observador de fora, desinteressado, não haveria talvez muita coisa que distinguir entre uma situação e outra.

Seriam então motivos psicológicos, existentes apenas na mente humana individual? Wittgenstein responderia negativamente. Nossas práticas lingüísticas não podem ser explicadas com recurso a nossos estados mentais, tão simplesmente. Uma frase tem sentido por mais contraditórios e inusitados que sejam os meus estados mentais quando eu a pronuncio. Meu estado psicológico, o que eu sinto ou penso enquanto falo, é muitas das vezes irrelevante para a compreensão do ouvinte.

Como na atualidade é imperioso oferecer alguma conclusão sobre o que se está escrevendo – sob pena de cair na categoria daqueles escritores que não dizem coisa com coisa -, muito embora talvez a melhor maneira de filosofar seja a partir de idéias um tanto inconclusivas, sinto-me obrigado a oferecer algum tipo de finalização; certa espécie de “moral da história”. Melhor seria se sempre deixássemos que nossos medos e incertezas aflorassem, mas nos impõe a necessidade de se afirmar, ser imponente, dar alguma solução inabalada. Sempre lembrando que o melhor que eu tenho a oferecer são minhas dúvidas e inquietações – que tem algumas implicações no campo moral, mas aqui não cabe entrar neste mérito -, termino por escrever um último parágrafo dedicado a satisfazer tal necessidade. Eis a minha sentença:

A partir do estudo de Wittgenstein, parece-me que o núcleo da compreensão de nossas práticas lingüísticas é sempre misterioso, oculto, nebuloso, enigmático... Posso adicionar ainda mais alguns adjetivos tenebrosos: intangível, indizível, irracional, inverificável. Por isso, tudo o que podemos dizer sobre algumas é que elas simplesmente são. O fundamento de uma crença – como a de que o tratamento médico concluiu-se – não me parece ser mais do que a confiança depositada no outro. Uma aposta, mas certamente não da mesma natureza que a do segundo paciente. Em verdade, talvez, um ato de fé. Por que ninguém duvida do resultado do tratamento ou de que o seu avião cairá? Pode-se, com certa oficialidade, sustentar a confiança em dados estatísticos frágeis. Mas a mim parece que estamos sobre a areia movediça. É sobre ela que podemos andar e que efetivamente se anda.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Apresentação


Atualmente estamos estudando a obra Investigações Filosóficas de L. Wittgenstein.
O ciclo de reuniões de leitura do texto terminou. Mas agora iniciaremos a publicação de nossas anotações, comentários, demais textos, comparações e tradução de comentadores do pensamento de Wittgenstein.

Bem-vindo a todos!
Espero que aproveitem o blog.

Ricardo Evandro S. Martins